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Editorial
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Direita perplexa,
esquerda indignada ?
Ganhei sofrendo a certeza de
que o mundo não é só meu. Mais que viver, o que importa é
trabalhar na mudança (antes que a vida apodreça) do que é preciso mudar.
Cada um na sua vez, cada qual no seu lugar.
Thiago de Mello in "Mormaço
na Floresta"
A
Assim que soube do resultado das eleições presidenciais em 1989, Fernando
Collor de Mello, eleito com vasto apoio da direita,engatilhou a frase de
efeito: "Farei um governo que deixará a esquerda perplexa e a direita
indignada". Vimos no que deu. Será possível que Lula, invertendo o
enunciado, entrará para a história do Brasil como o presidente que deixou
a direita perplexa e a esquerda indignada?
Ser de "esquerda",
malgrado matizes inumeráveis, tinha estes significados incandescentes:
desconcentrar a renda, a riqueza, a propriedade e o poder, exercer vigorosa
intervenção econômica, política e cultural sob os nortes da igualdade
social e da liberdade real para todos os humanos, recuperar a soberania do
país frente às aves de rapina internacionais, reinventar e diversificar os
meios e modos de exercer a democracia direta – por aí vai. E, para
florescer tanta rosa generosa, seria preciso regar com abundância duas
roseiras. Primeira delas: (re)construir um aparelho estatal forte, dotado de
instrumentos de ação vigorosos, para contrabalançar a força
econômica-política-social das elites dominantes. Um Estado dotado de
servidores incendiados pela idéia motriz de entregarem suas vidas, com
entusiasmo, ao serviço da pátria e do povo – portanto, remunerados com
dignidade, tratados com respeito, ouvidos e cobrados sem cessar em nome do
bem comum. Cidadãos livres e atuantes, não barnabés atemorizados. A
segunda "roseira" da esquerda era esta: os trabalhadores, o povo
– que deveria ser interminavelmente consultado, mobilizado
interminavelmente, organizado e emulado a bradar o que dilacera seus
corações e corpos e a proclamar com ardor renovado o que animava sonhos
imemoriais.
Evidentemente, tanto aquelas
consignas, como essas rosas e roseiras, não têm encontrado solo fértil
para florescer nos jardins do Palácio do Planalto, sufocadas que estão por
ervas daninhas que por lá continuam a vicejar. Ao contrário: para ficarmos
só numa das "desreformas" em andamento, o governo Lula, com o
propósito de mobilizar mais e mais recursos para continuar pagando juros da
dívida externa, empenha-se em economizar o quanto puder com a previdência
social, principalmente com a previdência dos servidores públicos. Sua
idéia de reforma nesse setor resume-se a cortar direitos historicamente
conquistados, para transferir mais renda social aos usurários
internacionais e aos banqueiros. Não se trata de suposição, os
banqueiros, literalmente, esfregam as mãos de contentamento: bastou, no
início do ano, o governo anunciar suas intenções nesse setor, e as
receitas dos planos privados de previdência mantidos pelos bancos deram,
só no primeiro trimestre de 2003, um salto de R$ 3 bilhões – um
crescimento inédito de 74,6%!
No limite, o que está em jogo é
nossa concepção de Estado: forte, capaz de prestar serviços de qualidade
à população, dotado de profissionais preparados, valorizados e motivados
ao embate em defesa do patrimônio público e do interesse social; ou uma
máquina em frangalhos, incapaz de resistir a apetites privados, com
servidores humilhados e deprimidos.
Felizmente, a resistência que nós,
servidores públicos, oferecemos desde o início à proposta oficial de
reforma da Previdência, assegurou com que muitos de nossos direitos fossem
salvos. Em alguns casos, como na novela do subteto remuneratório estadual,
nossa resistência conseguiu inverter as coisas ao ponto de até obtermos
avanços. A Apesp orgulha-se de, ao lado de outras entidades
representativas, ter sido e continuar sendo personagem ativa desse processo
de resistência – não deixando passar sua vez de lutar, não se eximindo
de ocupar seu posto no lugar onde se dá o combate.
José Damião de Lima Trindade
Presidente da Apesp

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