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A última chance
Procuradores
de São Paulo defendem com unhas e dentes,
em Brasília, nos tribunais superiores, os interesses do
Estado |
E
les deixaram amigos,
parentes e seguiram com suas famílias para o centro do país.
Enfrentaram um período de dura adaptação, solidão, estranheza.
Tiveram de aprender muita coisa, inclusive a conviver com as altas
temperaturas e o ar seco. E nem pensam em abandonar nada disso.
Os procuradores de São
Paulo que atuam em Brasília não cogitam voltar. Apesar do trabalho
que, à semelhança dos demais setores da PGE, é muito maior do que
a quantidade de pessoas para executá-lo, esses profissionais gostam
da vida tranqüila, da falta de trânsito e da segurança com que
convivem. Ganharam em qualidade de vida e no conhecimento que foram
capazes de acumular durante o tempo em que defendem o Estado nos
tribunais de última instância, no Distrito Federal.
A "clínica
geral", como definem sua atuação diante dos processos,
abrange todos os setores. Todo mundo faz de tudo. Fiscal,
servidores, responsabilidade civil, trabalhista, administração,
licitações, patrimônio imobiliário, meio ambiente. Só a
assistência judiciária fica a cargo de um único procurador,
Waldir Francisco Honorato Júnior, que chegou ao DF há 3 anos,
justamente para cuidar desse setor.
São doze procuradores
classificados na Procuradoria do Estado em Brasília, mas nem todos
em atividade. Dois, em fase de pré-aposentadoria, estão em
licença-prêmio. Outros, em férias. Para cuidar adequadamente dos
cerca de 30 mil recursos em tramitação nos tribunais seriam
necessários pelo menos quinze atuando.
"Aqui acompanhamos
todos os processos nos quais o Estado é parte", conta o
procurador-chefe, Marcos Ribeiro de Barros, que está desde 1996 em
Brasília. Isso significa dar conta de ações distribuídas pelo
Superior Tribunal de Justiça, Supremo Tribunal Federal, Tribunal
Superior do Trabalho, pela Justiça Federal ou no Tribunal de
Justiça do Distrito Federal. Marcos conta que o grosso do trabalho
está no STJ e no Supremo – onde passou cinco anos assessorando os
ministros Otavio Gallotti e Ellen Gracie. No TST, figuram ações
trabalhistas propostas por servidores públicos.
A exemplo de Marcos, a
procuradora Anna Maria de Carvalho Ribeiro, em Brasília também
desde 1996, atuou como assessora do Ministro Milton Luiz Pereira, no
STJ, de dezembro de 1998 até fevereiro deste ano. "Com essa
experiência, aprendi a recorrer somente de teses que não desgatem
o Estado de São Paulo perante os tribunais superiores."
Fôlego
– Há quem pense que os procuradores em Brasília trabalham pouco.
Afinal, precisam somente acompanhar os recursos. Esse
"somente", no entanto, significa tomar conhecimento de
peças que, justamente por estarem em fase final, são enormes.
Depois, o procurador deve produzir um memorial aos ministros, com um
resumo das principais teses do Estado naquele processo. Às vezes
são feitas também sustentações orais perante as sessões das
turmas e do plenário dos Tribunais.
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Marcos,
Newton, Pinho, Andréa, Paula e José Maurício (da esq. p/
dir. na primeira foto) contam com o apoio
dos funcionários da PGE (no centro) para realizar um bom
trabalho no Supremo e demais tribunais, em Brasília
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"Pode
acontecer de só ficamos sabendo a matéria que envolve um
determinado recurso quando ele é distribuído e sai a
publicação no Diário Oficial da União. Daí ainda temos
de esperar a peça chegar e começar as pesquisas em torno do
assunto", diz o procurador Newton Jorge, que entrou na PGE em
1987 e está em Brasília desde o ano 2000.
"Ao
contrário do que se imagina, nosso trabalho é árduo. Aqui,
ainda que pequenas, as vitórias têm grande valor. Além disso,
aproveitando as aposentadorias de vários ministros, tanto do STJ
como do STF, foram criados, pela chefia, grupos de trabalho para
pesquisar as teses perdidas e tentar mudá-las com a nova
composição das turmas", conta a procuradora Anna Maria.
A correria é
menor quando algum procurador comunica determinado processo
formalmente ou informalmente – via telefone ou fax. "Tem
colegas que vão além da responsabilidade de procurador, por
espírito de advocacia pública", avalia José Maurício
Camargo de Laet, vinte anos de Procuradoria e há quinze em
Brasília. "Com o número de procuradores que temos, fazemos
mágica."
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Manoel Pinho,
piauiense criado no Maranhão, que viveu em São Paulo desde os 19
anos, concorda com Maurício. "Ouvia que o pessoal de
Brasília não fazia nada. Vim para cá e aprendi mais do que
imaginava. Agora vou repassar conhecimento e meu desaguadouro,
espero, será a Consultoria, em área tributária." Pinho diz
isso porque é a exceção à regra: após cinco anos em
Brasília, é o único que está de malas prontas, à espera de
sua transferência de volta para São Paulo. Alguma reclamação
do Planalto? De forma nenhuma. "Saí de São Paulo porque
não agüentava mais aquela vida louca. Aqui os filhos têm
liberdade, muita diversão, tudo é perto. Mas me planejei para
ficar por cinco anos e agora está na hora de voltar." |
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José
Maurício, Newton, Marcos e Pinho |
Retrato
– Brasília é um Brasil em miniatura. Há pessoas de todo o
país e essa parece ser uma das maiores qualidades do lugar.
"Aqui todo mundo é de fora, fica mais fácil se enturmar",
conta Pinho. "Dia das Mães, Natal, passamos com os amigos,
temos que contar uns com os outros", define Newton Jorge. O
procurador-chefe Marcos Barros vai mais longe: "Brasília nos
permite ter uma noção mais sensível de Brasil, tem gente de
todo lugar, é uma experiência muita rica".
Para a
procuradora Andréa Metne Aurnaut, essa qualidade, a princípio,
se interpõe como a maior dificuldade para a adaptação. Há nove
anos na PGE e há cinco no Distrito Federal, Andréa conta que
quase desistiu. Hoje, não se arrepende de ter insistido. "A
fase de adaptação é muito difícil, há muita segmentação, as
pessoas se separam quase em guetos. Depois de me acostumar estou
muito feliz, temos uma qualidade de vida que não tínhamos em
São Paulo." Para Paula Nelly Dionigi, que nos dezenove anos
de procuradoria sempre atuou em Brasília, "essa é uma das
melhores cidades para se viver no Brasil".
Qualidade de vida
significa vida profissional de qualidade também. Os procuradores
consideram que a proximidade com o poder nunca atrapalhou, ao
contrário, só tem ajudado. Manoel Pinho afirma que não havia
trabalhado com profissionais tão qualificados como os que
encontrou no Judiciário de Brasília. E, a despeito do que o
senso comum aponta, os ministros do Supremo não se comportam como
deuses inatingíveis. "Eles são absolutamente acessíveis e
têm um tratamento muito respeitoso com os procuradores",
afirma Marcos Barros. "São pessoas preparadas para o poder e
quem chega tem de se adaptar a esse padrão de excelência, isso
eleva a qualidade do serviço", acredita Newton Jorge.
Injustiça
– E é bom que seja assim, pois quando um processo chega às
mãos dos procuradores em Brasília o Estado já foi condenado.
"Por isso digo que aqui fazemos clínica geral para pacientes
em estado terminal", compara Pinho. Os casos mais importantes
são encaminhados à PGE na capital federal, por expedientes
administrativos e um dos procuradores locais é designado para
acompanhá-lo, quando, então, é feito contato com a unidade que
gerou aquele processo.
"Dá
indignação ver casos em que o Estado é julgado de forma
imprópria", revolta-se Newton Jorge. "O colega que
perdeu o processo na origem também tem o mesmo sentimento: liga,
manda fax, quer ganhar de qualquer forma, o Estado não pode levar
prejuízo", completa Newton.
E que prejuízos!
Em algumas causas, São Paulo corre o risco de perder bilhões de
reais caso essa última chance, o recurso, seja perdida. Vitória
em uma ação ambiental em Ubatuba, por exemplo, economizou para o
Estado perto de R$ 1,5 bilhão.
"A despeito
da carência, fazemos trabalho de leão", avalia a
procuradora Andréa. "Tentamos ser combativos, sem deixar de
fazer advocacia de qualidade. Em cada situação de risco de perda
para o Estado, mesmo que microscópica, tem um procurador atuando
no caso", ressalta ela.
O
procurador-chefe Marcos Barros afirma que a média é de 1,5
recurso – 70% deles na área tributária – por dia para cada
procurador, contando que trabalhem aos sábados e domingos.
"E é preciso lembrar que são todos processos
diferentes", diz a procuradora Paula Dionigi. "Tratamos
ao mesmo tempo de servidores, desapropriações, ICMS,
responsabilidade civil", emenda Andréa. "O Estado pode
ser processado até mesmo se um policial militar fere alguém com
a arma da corporação, mesmo que este PM não esteja em
serviço", destaca.
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Marcos Barros:
"lidamos com
quantidade
assustadora
de processos,
mas criamos
couraça e
vamos à luta".
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Exemplo – Ainda
bem que não perdem tempo entre a casa e o trabalho. Afinal são
de oitenta a cem publicações por dia – cinqüenta a sessenta
processos retirados diariamente chegam às mesas dos procuradores,
de acordo com Marcos Barros. "E temos de fazer, não
interessa se é sábado, domingo, feriado, dia ou noite. Temos de
respeitar os prazos", diz Newton Jorge.
Disso depende
muita coisa. Os procuradores em Brasília economizam dinheiro que
o Estado, por vezes, já dava por perdido. Marcos cita o caso da
isenção que as empresas jornalísticas tinham para a
importação de insumos para impressão (papel, filme).
"Essas empresas estavam estendendo a imunidade para
máquinas, tinta, peças etc. A Procuradoria Fiscal criou a tese e
o recurso chegou ao Supremo. Ao final, conseguimos que as empresas
pagassem os impostos devidos", conta o procurador-chefe.
Aylton Marcelo
Barbosa da Silva, procurador em Brasília desde 1994, conduziu um
caso em que se discutia se, sobre a venda de fitas VHS, incidia o
ICMS, de competência dos estados, ou o ISS, de competência dos
municípios. Em sua sustentação oral, no Supremo, além das
razões jurídicas, ele lembrou aos ministros que seria um absurdo
que sobre a comercialização dessas fitas (e levou várias delas
ao tribunal), vendidas até em supermercados, como mercadorias,
não incidisse o ICMS.
Há recursos que
estabelecem jurisprudência e passam a fazer diferença em vários
outros estados. Foi assim com a ação direta para discutir a
inconstitucionalidade do ato normativo que determinava o
seqüestro de verba pública por quebra de ordem em pagamento de
precatório. "Fomos pioneiros nessa reclamação e ela se
refletiu em outros lugares. Agora não é possível determinar o
seqüestro, a não ser em caso de real preterição de
ordem", conta a procuradora Andréa Arnaut.
É ela que
também relata um caso de desrespeito à matéria ambiental.
"Nem mesmo os ministros tinham noção do que significavam os
termos de direito ambiental. No memorial expliquei as diferenças
entre reserva legal ambiental e área de preservação
permanente", conta Andréa. Nesta última, arrancar árvore
pode acarretar não só distúrbios ambientais, como causar
desmoronamentos, desabamentos, colocando em risco vidas humanas.
"Matar é crime. Não podemos pagar para alguém não cometer
um crime", diz Andréa, ressaltando que o processo crescera
de volume porque não se estabeleciam os conceitos corretos.
Os procuradores
sabem que estão no fim da linha. Depois deles, nada mais pode ser
feito. Por isso, agem com responsabilidade, mas não desistem. O
poder público não pode deixar de recorrer. E eles sabem que o
público é o que pertence a cada um de nós. Então, não
descansam. O procurador-chefe resume: "A quantidade de
processos com que lidamos é algo assustador, mas criamos uma
couraça e vamos à luta".
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