ASSOCIAÇÃO DOS PROCURADORES DO ESTADO DE SÃO PAULO



 

Entrevista

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O período de transição já foi concluído

Para o sociólogo Emir Sader, não se justifica mais a manutenção da prioridade da estabilidade monetária sobre o privilégio do social, para o qual Lula foi eleito

Ele é um dos mais atentos observadores da política e dos movimentos sociais internacionais. Sociólogo vigilante, Emir Sader não descansa o olhar crítico. Há cerca de um mês, em sua coluna O mundo pelo avesso, do sítio noticioso Agência Carta Maior, escreveu o seguinte diagnóstico:

"Ele foi eleito para mudar o país e tirá-lo de um modelo econômico considerado causa dos males que produzem a miséria e a infelicidade do seu povo... foi depositário da esperança do movimento popular... havia estado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, identificando-se com suas causas... Seu nome é Lúcio Gutiérrez (Equador). Aos seis meses de governo, parece juntar-se ao cada vez mais extenso grupo de presidentes latino-americanos que prometem sair do modelo neoliberal e – porque não conseguem e/ou não querem – acabam fracassando..."

Perguntado se o texto é uma indireta ao governo Lula, resume: "O artigo analisa uma situação concreta, que deve servir de advertência sobre os riscos das tentativas frustradas de sair do modelo neoliberal". E entre um pit stop e outro de suas peregrinações pelo país para participar de debates e divulgar seu recém-lançado A Vingança da História (Boitempo Editorial), Emir Sader concedeu, por e-mail, esta entrevista. 

O ProcuradorO senhor considera a hipótese de o governo Lula agir com excesso de cautela porque se estivesse agindo com mais esperança e menos medo poria em risco a governabilidade?

Emir Sader – Esse é o argumento do governo. Qualquer que seja, o período de transição foi concluído, já não se justifica mais a prioridade da estabilidade monetária sobre o privilégio do social, para o qual Lula foi eleito. O governo deveria agora entrar numa nova etapa, depois de concluir sem ruptura a transição para o novo governo. O tratamento dado às reformas da Previdência e tributária, por exemplo, é indevido, porque não se trata de fazer justiça fiscal, nem de criar condições para universalizar os direitos da seguridade social, mas simplesmente de aumentar o ajuste fiscal, conforme o próprio Banco Mundial prega no que chama de "segunda geração de reformas". 

O ProcuradorO senhor concorda com a tese de que o momento não seria de ruptura, mas de "disputa" por espaço nas decisões?

Emir Sader – Concordo que há uma luta por hegemonia no governo e que o papel dos movimentos sociais é somar-se aos que pregam a efetiva realização da mudança e da prioridade do social, que fundamentam a vitória e o governo Lula. 

O ProcuradorO que dificulta para as esquerdas da América Latina empreender políticas alternativas ao neoliberalismo?

Emir Sader –
As dificuldades vêm tanto da pesada herança deixada pelo neoliberalismo, com todas as armadilhas do mercado montadas, quanto da inexistência de experiências históricas de governos pós-neoliberais. Mas vêm também da falta de vontade e de decisão política de alguns governantes, que se mostram não estar à altura do momento em que são eleitos, como foi o caso de Fernando De la Rúa. 

O Procurador – No Chile, a "moderação" do socialista Ricardo Lagos deve-se mais às amarras do cenário sócio-econômico enraizado sob o regime de Pinochet ou ao trauma da ditadura?

Emir Sader – No Chile, a aliança socialista/democracia cristã optou, tal como governos da Europa e de outros países da América Latina, por manter a política econômica de Pinochet, com medo de perder o apoio do grande empresariado. Com isso se ataram as mãos para poder melhorar as condições de vida da massa da população chilena.

 

Esquerda e direita

Esquerda e direita existem, mais do que nunca, em um mundo polarizado entre a riqueza e a miséria, consumistas e humanistas, belicistas e pacifistas. Escolha o seu lado e lute por ele, sem esconder seus valores 
                                                                                         
                                                                                                         Emir Sader

"Como direita continuo a considerar aquelas forças que se põem a serviço dos interesses das pessoas satisfeitas. Os outros, os que se sentem e agem do ponto de vista dos pobres, dos danados da terra, são e serão sempre a esquerda.

"No nosso tempo, todos os que defendem os povos oprimidos, os movimentos de libertação, as populações esfomeadas do terceiro mundo, são a esquerda. Aqueles que, falando do alto do seu interesse, dizem que não vêem porque distribuir um dinheiro que suaram para ganhar, são e serão a direita.

"Quem acredita que as desigualdades são um fatalismo, que é preciso aceitá-las, desde que o mundo é mundo sempre foi assim, não há nada a fazer – sempre esteve e está à direita. Assim como a esquerda nunca deixará de ser identificada nos que dizem que os homens são iguais, que é preciso levantar o que está no chão, lá embaixo. Acredito que esta distinção existe, continua fundamental, ainda hoje serve para distinguir as duas grandes partes da política."

Tais palavras, do filósofo italiano Norberto Bobbio, em entrevista a Araújo Neto publicada no Jornal do Brasil, servem como uma definição sintética, mas suficiente para caracterizar a direita e a esquerda, e para estabelecer sua atualidade.

Seja a identificação com os de baixo – a grande maioria – ou com os de cima. Com os países da periferia ou os do centro do capitalismo. Com os insatisfeitos ou com os conformistas. A fatalidade da desigualdade ou a rebeldia contra ela. A naturalização da pobreza ou a luta incessante pela justiça. Privilégio do financeiro ou do social. Universalização dos direitos ou apenas concessão de oportunidades. Interesses públicos ou do mercado. Solidariedade ou competição no mercado. Humanismo ou um mundo em que tudo se compra, tudo se vende. Multilateralismo ou unilateralismo. Soluções de força ou negociações políticas. Davos ou Porto Alegre.

Como ficou ruim ser de direita – estar do lado de Bush, por exemplo –, os que são de direita, sem deixar de sê-lo, ou dizem que já não há direita e esquerda, ou que agora são de centro. Quem é de esquerda se assume como de esquerda, se filia a uma longa tradição de lutas pela igualdade, pela justiça, pelo reconhecimento da diferença, pelo combate permanente por uma sociedade mais justa e mais humana, e se orgulha dela.

Hoje no Brasil, por exemplo, ser de esquerda é dar um combate frontal e sem trégua pelo menos às duas piores heranças do governo (de direita) do presidente Fernando Henrique: a hegemonia do capital especulativo e a precarização do mundo do trabalho. De direita é quem defende os interesses do capital financeiro, quem privilegia os critérios de mercado em detrimento dos direitos da grande massa da população, que vive do seu trabalho.

Esquerda e direita existem, mais do que nunca, num mundo polarizado entre riqueza e miséria, entre belicistas e pacifistas, entre consumistas e humanistas. Escolha o seu lado e lute por ele, sem esconder seus valores.
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Emir Sader, professor da USP e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor de A vingança da História (Boitempo Editorial) e Século XX – Uma biografia não autorizada (Editora Fundação Perseu Abramo). Artigo publicado na coluna O Mundo pelo Avesso, do site www.agenciacartamaior.com.br, em 28/8/2003

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