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Editorial
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Foi vencido o
inverno
A
luta tem sido feroz, combatemos sob fogo cruzado e em campo minado, ora
surpreendidos por traições de supostos aliados,ora arregimentando apoios
antes improváveis. Mas, até agora, temos vencido batalhas
importantíssimas. Nessa verdadeira guerra da "contra-reforma" da
Previdência Social, o governo federal e os governadores foram forçados a
recuos sucessivos, e aquela urdidura inicial de verdadeira "terra
arrasada" contra o regime previdenciário dos servidores públicos já
se torna quase irreconhecível, ao menos no que toca aos direitos dos atuais
servidores.
Para ficarmos só nos avanços mais
expressivos: foi assegurada a aposentadoria com remuneração integral, foi
resgatado o princípio da paridade nos reajustes entre os ativos e inativos,
foram amenizadas as regras de transição (embora insuficientemente) e,
malgrado tantos transes e sobressaltos, foi arrancado dos governantes – a
fórceps, na madrugada, com o coração a ponto de explodir – a garantia
aos procuradores do mesmo subteto estadual das demais carreiras jurídicas.
Esta última vitória foi crucial, reveste-se de dimensão histórica, pois
configura um avanço institucional importantíssimo e certamente inesperado
pelos autores da proposta inicial. Nossa inclusão, em pé de igualdade, no
subteto estadual dos juízes e promotores recoloca-nos constitucionalmente
no mesmo status de importância institucional dessas carreiras jurídicas,
cicatrizando a ferida aberta em 1998, quando perdemos a paridade do artigo
135 da Constituição federal. Tal conquista também põe armas em nossas
mãos para o subseqüente combate da reforma do Judiciário, e situa-nos a
um passo da paridade remuneratória com as demais carreiras jurídicas. E,
numa perspectiva do conjunto do serviço público, talvez até venha a abrir
caminho para um subteto estadual único – agora, não mais nivelado por
baixo, como fora o propósito dos que haviam engendrado o plano dessa
contra-reforma.
Lições da luta: foi decisivo
combinar a pressão coletiva de atos públicos massivos (11 de junho, 8 de
julho, 6 de agosto, 19 de agosto), a campanha paga nos meios de
comunicação e uma articulação intensíssima no Congresso. A pressão
coletiva nas ruas desestabilizou o monolitismo inicial da base parlamentar
do governo federal e dos governadores, gerou fraturas em todos os partidos e
acabou abrindo caminho para que pudessem ter êxito as articulações
políticas cerzidas pelas entidades num "corpo-a-corpo" fatigante
e interminável sobre parlamentares oscilantes.
Isso significa que tudo ficou bem
agora? Certamente, não. A "desreforma" da Previdência continua
sendo deletéria ao serviço público, aos servidores e ao país, aprofunda
a insegurança jurídica, pavimenta o caminho para a expansão dos fundos
privados de previdência complementar, tributa os aposentados, castiga os
que entraram mais cedo no mercado de trabalho, estimula a evasão de
professores das universidades públicas para as faculdades privadas...
Contudo, o saldo da luta, malgrado
desuniforme e inconcluso, é certamente positivo em pontos essenciais, ainda
mais se considerada a dimensão da ameaça de poucos meses atrás.
Conseguimos não só evitar que essa "reforma" saísse conforme
arquitetada, como também introduzimos nela cunhas nunca sonhadas por seus
autores – ganham o país e o serviço público.
Esta edição de O Procurador
adentra nossas casas no momento em que as primeiras luzes da primavera
começam a deitar claridade na linha do horizonte – e na linha do nosso
horizonte. Por certo, neste mesmo momento torna-se mais uma vez
incandescente a peleja – agora, naqueles corredores quase opressivos do
Senado. Mas já percorremos a trilha mais temível, a do "inverno da
desesperança", e não fomos abatidos.
Valeu e vale a pena lutar!
José Damião de Lima Trindade
Presidente da Apesp

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