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A consciência legal do Estado
O
trabalho realizado pelos procuradores e procuradoras da
Consultoria Jurídica orienta os passos da Administração
Pública |
Heróis
anônimos, na base de todos os acertos dos funcionários públicos
que fazem andar a máquina administrativa do Estado de São Paulo
estão os procuradores que atuam como consultores jurídicos na PGE.
Eles não aparecem, não têm projeção, mas tentam, com sua
atuação atenta, impedir qualquer deslize pelo qual secretários de
Estado, órgãos, autoridades e agentes do Poder Executivo, até o
próprio governador, tenham depois de prestar contas à Justiça.
Representam a imagem que o Estado, este sim com ampla projeção,
passa aos cidadãos.
Um trabalho contínuo e
interminável de advocacia preventiva. Mas nem sempre foi assim. Nos
períodos de ditadura e no início da abertura política, a
preocupação com a lisura dos atos públicos não era tão grande e
a Consultoria Geral era menos exigida. Os tempos são outros.
"A Constituição de 1988 levou a um maior rigor na
fiscalização dos atos administrativos, o que multiplicou a
atuação dos órgãos consultivos", lembra a
subprocuradora-geral da área da Consultoria, Ana Maria Rinaldi.
"Além disso, mudou a mentalidade administrativa: prefere-se
fazer certo – o que exige advocacia preventiva – a ter de
corrigir o errado", completa.
Esse fato é perceptível.
As procuradoras Adriana Moresco (CJ da Secretaria de Segurança
Pública) e Shirley Tomé (da Saúde) observam que a partir da
gestão de Mario Covas a Consultoria tem sido mais solicitada.
"A Administração exige não somente a indicação do caminho
legal para atingir um determinado objetivo, como a atuação em cada
fase do caminho", confirma Adriana. "O contexto
sócio-político sofreu uma alteração substancial, pois a
sociedade tornou-se mais exigente, a imprensa mais democrática, o
Ministério Público mais atuante. A Administração passou a se
preocupar mais com a questão da legalidade, o que imprimiu uma
dinâmica diferenciada à atuação das Consultorias",
acrescenta Shirley.
Na CJ da Secretaria de
Emprego e Relações do Trabalho não é diferente, de acordo com a
procuradora Raquel Pupo: "As mudanças fizeram com que, cada
vez mais, fôssemos nos imiscuindo em praticamente tudo o que
acontece nas Pastas. A própria PGE hoje orienta nesse
sentido". Rosana Villafranca, da CJ da Secretaria da Cultura,
aponta que houve uma verdadeira mudança de postura e de mentalidade
do procurador do Estado, que, de uma atitude passiva, "passa a
propor e elaborar as soluções jurídicas alternativas a serem,
posteriormente, formalizadas e encaminhadas a pareceres".
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Falta
– Evidentemente, a demanda de trabalho é crescente. De acordo com
a subprocuradora-geral Ana Rinaldi, em 2000 foram proferidos mais de
12 mil pareceres; em 2001, mais de 13 mil e, em 2002, mais de 17
mil. Nesse mesmo ano foram informados mais de mil mandados de
segurança, houve mais de 11 mil atendimentos à Administração,
incluindo participação em reuniões, e encaminhados mais de 50 mil
ofícios.
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Ana Rinaldi: Estado tem de fazer o certo
antes, e não corrigir o errado depois |
Todo esse trabalho, a
despeito da disposição e paixão com que é realizado, poderia ser
organizado de forma mais racional, não vivesse a Consultoria
Jurídica as mesmas dificuldades impostas a outros setores da PGE
– a principal delas, a falta de profissionais. "Na área, a
lotação é de 172 cargos. Hoje, há 84 procuradores atuando, 62
cargos vagos e há cerca de trinta afastados – destes, seis na AJG,
seis na ATL, o presidente da Apesp, a presidente da Funap e até um
deputado federal", enumera Ana Rinaldi. Outras dificuldades se
interpõem: os demais procuradores dividem-se entre os que vêm
gozando sucessivas licenças-prêmio, com a perspectiva de próxima
aposentadoria – cerca de vinte têm condições para isso –, e
os que atuam no GPG e no Centro de Estudos.
"Há necessidade de
mais trinta procuradores, o que será resolvido com a remoção que
se efetivará por ocasião do ingresso de novos procuradores",
acredita Ana. No entanto, ela lembra que, caso muitos procuradores
se aposentem – situação agravada pela reforma previdenciária em
tramitação –, a remoção será insuficiente para resolver a
situação. "Quem me conhece sabe que meu grande pleito sempre
foi por mais procuradores", destaca. Preocupação esta,
aliás, de todos os profissionais do setor.
Shirley Tomé, da Saúde,
lembra que, no mesmo período em que as atribuições da CJ
aumentaram, houve diminuição substancial do quadro de
procuradores. "Fruto da política de contenção de gastos que
nos atinge diretamente, os poucos concursos realizados não foram
suficientes para preencher os cargos vagos em decorrência sobretudo
de aposentadorias, pois é aqui que estão classificados os
procuradores mais antigos da carreira."
Conselheira eleita, Shirley
ressalta que, ainda que se efetivem, as nomeações não são
suficientes para solucionar os problemas da área consultiva.
"É preciso investir na informatização da área, iniciando
esse processo com a criação de um banco de pareceres. Tenho
insistido firmemente nessa idéia e espero que ela seja acolhida
pelos dirigentes da nossa instituição." O banco de pareceres
evitaria que um mesmo assunto fosse abordado de forma diferente
pelas consultorias.
A subprocuradora-geral Ana
Rinaldi faz coro à importância da divulgação das orientações
da CJ. "Por vezes, um procurador está iniciando estudos para
contestar uma ação e não sabe que a Procuradoria Administrativa
já debruçou sobre o tema e que há orientação fixada pelo
procurador-geral do Estado", observa. E tenta propagar essa
idéia como pode: "Faço a divulgação de nossas atividades e
de nossos trabalhos utilizando a rede notes, internet,
publicações do Centro de Estudos e os relatórios do
Governo".
Atuação
– O reconhecimento crescente não torna menos complicada a tarefa
desses autênticos "grilos-falantes". Para defender os
interesses do Estado e para que os administradores não tenham a
legalidade de seus atos contestada, por vezes os procuradores da CJ
são obrigados a dar murro em ponta de faca. "Em algumas
ocasiões, até conquistarmos a confiança da Administração, somos
vistos como quem está ali para causar problemas. Afinal, o
administrador sempre tem pressa, precisa mostrar serviço e tende a
achar que passar pela Consultoria vai causar demora. Não passa e
então demora ainda mais se somente lá na frente, depois de um
projeto totalmente pronto, aparece alguma irregularidade",
explica Ana Rinaldi. "Por vezes, se a CJ diz sim, há a ilusão
de que não era necessário ouvi-la; se diz não, a idéia é que
atrapalha."
A subprocuradora-geral, na
Consultoria desde 1990, acumulou experiência. Conta que os
administradores só percebem a importância do trabalho realizado
pela CJ com o passar do tempo, conforme têm maior sucesso diante de
questionamentos. "Mas toda vez que há mudanças na
Administração, a área é atingida, temos de passar por todo o
processo de ganhar confiança novamente", afirma.
Especificidades
– Malgrado a atividade da CJ estar concentrada na ampla
prestação de "assessoramento jurídico em assuntos de
interesse do órgão vinculado, compreendendo a participação em
reuniões, realização de estudos, formulação de propostas,
apresentação de soluções alternativas e elaboração de
instrumentos jurídicos" (inciso I, do artigo 42, do
Anteprojeto de Nova Lei Orgânica da Procuradoria), cada Pasta
tem características próprias. Mara Faiwichow Estefam, chefe da CJ
da Secretaria de Segurança Pública – que com dez procuradores
responsáveis, em 2002, analisou 10.263 processos, 2.767 pareceres,
15.175 manifestações e 89 informações em mandados de segurança
–, informa que "alterações na Lei Orgânica da Polícia
Civil, por exemplo, demandaram indagações jurídicas altamente
sofisticadas que ensejam, às vezes, o envio dos processos à
Procuradoria Administrativa".
Na CJ da Secretaria da
Saúde, seis procuradores são encarregados de dar cabo do trabalho
referente a unidades situadas na capital e no interior.
"Algumas das quais, dado o porte e complexidade, exigiriam
órgãos consultivos próprios, como o Hospital Emílio Ribas, o
Complexo Hospitalar do Mandaqui, o de Sorocaba, o Heliópolis",
explica Shirley Tomé. "Todas as consultorias têm suas
especificidades e a da nossa está no fato de tratarmos de um
assunto que é muito caro a todos: a vida humana."
Raquel Pupo destaca que as
atribuições de sua pasta concentram-se nos temas emprego e
relações do trabalho. "Isso numa era de desemprego
total." Assim, a CJ dá formatação jurídica e acompanha o
desenvolvimento administrativo do Programa Emergencial de
Auxílio Desemprego, do Programa Jovem Cidadão – Meu
Primeiro Trabalho e do Banco do Povo Paulista Pró-Lar.
"Nosso trabalho é orientar para gastar bem", resume
Raquel.
Lugar comum ou preconceito,
o fato é que as mulheres costumam ser tachadas de teimosas. Se for
mesmo esse o caso, sorte da Consultoria Jurídica: dos 84
profissionais que insistem vigorosamente em manter a Administração
longe de vícios de ilegalidade, 62 são procuradoras, mulheres
apaixonadas pelo que fazem.
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Histórias
de sucesso
A
Consultoria Jurídica coleciona casos e mais casos em que
seus pareceres representaram grande economia para o Estado.
Conheça alguns.
Rodoanel
A
CJ da Secretaria dos Transportes acompanhou contratos, suas
intercorrências e acréscimos e realizou reuniões com
profissionais da área técnica. Os aditamentos autorizados
foram explicados pela procuradora Márcia Fuentes por
intermédio de mapas, com a autoridade de quem havia
acumulado total conhecimento sobre o assunto. "É como
quando se constrói uma casa, pensa-se em um quarto, depois
se quer fazer dois. No caso do Estado, esse aditamento tem
que ser autorizado. O Estado só paga se a alteração no
projeto foi necessária ou se houve mudança na previsão,
como no exemplo do quarto a mais. O Rodoanel custou 25% mais
que o valor contratado mas, graças à CJ, o Estado só
arcou com a parte que lhe cabia", afirma Ana Rinaldi.
Saúde
O
fornecimento de medicamentos é objeto de estudo da CJ da
Secretaria de Saúde. Nesse caso, os procuradores dão todo
o suporte à Pasta. Desde o surgimento de um novo
medicamento, pareceres são realizados com base em
informações médicas. Se for recomendado e for o caso de o
Estado fornecer, a CJ orienta a Pasta a conseguir recursos e
adquirir o remédio. Se não for adequado, os pareceres já
estarão prontos caso o Estado tenha de se defender quando
pacientes exigirem na Justiça a medicação.
Apoio
moral
Em
1994, uma rebelião de presos destruiu o Cadeião de
Pinheiros, construído um ano antes. O então secretário
Machado Meyer chamou Ana Maria Rinaldi, à época
procuradora da CJ da Secretaria de Segurança Pública, para
acompanhá-lo e ver os estragos causados. "Ele queria
apoio moral, não havia nada que eu pudesse fazer, mas
tínhamos adquirido a confiança do secretário justamente
pelas orientações passadas durante a construção do
presídio", conta Ana.
Padronização
Até
alguns anos atrás cada Secretaria fazia editais a seu modo.
"A Consultoria tem que analisar a aprovar cada um
deles: havia uma gama enorme de editais com formatos
variados até quando o conteúdo era o mesmo, um trabalho
insano", lembra Shirley Tomé. Então, grupos de
trabalho foram constituídos e a CJ padronizou os editais,
inserindo a realidade de todas as secretarias. "Isso
trouxe um importante auxílio à administração e facilitou
a atuação da CJ", conta Shirley.
Formação
A
CJ, em parceria com a Fundap e a Casa do Governo , treinou
profissionais da Administração para fazer licitação pela
modalidade pregão – forma menos burocratizada de licitar.
"Este é um trabalho anterior ao edital, de formação
do funcionário que vai atuar na licitação, o que
significa menos erros e ilegalidades", avalia Shirley
Tomé. "E o curso teve 100% de aprovação."
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