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PAJ
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Mudanças em xeque
Fechamento
de setores e remanejamento
preocupam procuradores da Assistência Judiciária, que
alertam para a necessidade de criação da Defensoria Pública
e a nomeação dos concursados |
No
último dia 3 de julho, em reunião do conselho da PGE, foram
apresentadas as justificativas para o fechamento dos setores de Poá
e Suzano da Procuradoria de Assistência Judiciária (PAJ). São
alterações pontuais que atingem também a Zona Leste (em São
Miguel e Tatuapé), mas cuja possibilidade de ampliação e
desdobramentos preocupam a maioria dos procuradores. Apesar de a
proposta ser considerada "racional", a impressão de se
descobrir um santo para cobrir outro persiste na categoria, que já
tem de conviver com estas mudanças no dia-a-dia, tornando a
atividade profissional ainda mais estressante.
Atualmente, a PAJ opera em
apenas sete cidades da Grande São Paulo, com 28 procuradores. Com a
mudança anunciada na PGE, serão quatro cidades com os mesmos 28
procuradores. Ainda assim, o serviço nesses municípios não será
totalmente coberto pela PAJ, pela escassez de profissionais e a
grande demanda. "Parece-me que a proposta procura organizar
melhor o serviço, concentrando-o em cidades com maiores demandas,
como Guarulhos, Osasco, Diadema e Mogi das Cruzes. O fechamento de
alguns setores e o reforço em outros parecem ser medidas ajustadas.
Temos, de qualquer forma, que lamentar a perda de espaços em locais
onde a PAJ ganhou enorme reconhecimento. Considerando-se a
importância do assunto, continuaremos acompanhando qualquer
mudança no setor", avalia o procurador Vitore André Zílio
Maximiano que, além da atuação na PAJ Criminal, é também
conselheiro da PGE e ex-presidente do SindiproesP.
Não há como deixar de lado
questionamentos como a substituição dos procuradores por advogados
terceirizados, que acarreta alto custo para o Estado e a sociedade.
Principalmente num momento em que mais de uma centena de novos
procuradores aprovados no último concurso aguarda ansiosamente por
sua nomeação (veja matéria na pág.6) sem que esta ocorra.
Além disso, se a intenção é modificar, por que não investir na
criação imediata da Defensoria Pública em São Paulo?
Afinal de contas, sabem os
procuradores, a Defensoria sim é o órgão público que garante às
pessoas carentes o acesso à Justiça, e sua criação, embora
estabelecida na Constituição Federal de 1988, no artigo 134, ainda
não se tornou realidade num dos Estados mais necessitados do país.
"Na verdade, o Estado está diminuindo a prestação de
assistência judiciária por intermédio do procurador e cada vez
gastando mais com advogados, num serviço que caberia à Defensoria
Pública realizar", destaca Vitore.
Condições limitadas
- O serviço essencial de assistência judiciária à população
carente vem sendo prestado pelos procuradores de São Paulo de forma
competente, mas as condições são precárias e limitadas, o que
torna o nível de estresse alto no trabalho e a frustração
profissional constante. Em todo o Estado, são cerca de 300
procuradores atuando em 26 cidades, das mais de 500 existentes.
Nos municípios em que não
há procuradores do Estado atuando, a assistência é feita pelos
advogados particulares mediante convênios.
Esta terceirização não
garante a prestação do serviço com dedicação exclusiva
nem com qualquer vínculo administrativo ou funcional, o que
impede que o trabalho seja coordenado e fiscalizado adequadamente
– os advogados recebem via Fundo de Assistência Judiciária, o
FAJ, formado por porcentagens das custas judiciais e
extrajudiciais pagas por quem tem condições financeiras. Só em
2002, segundo o procurador Vitore Maximiano, foram gastos cerca de
R$ 150 milhões com estas nomeações.
Na Grande São Paulo,
profissionais como o procurador Renato De Vitto, do Setor de
Acompanhamento de Processos de Poá, entendem que a desativação
de setores da PAJ representa uma grande perda institucional.
"Se considerarmos o atual contexto, em que se discute o
anteprojeto de criação da Defensoria Pública do Estado de São
Paulo, como reflexo da constatação de que a prestação da
assistência jurídica à população deve ser efetivada por uma
instituição apartada da PGE e devidamente aparelhada para tal, a
iniciativa é também inoportuna", destaca. Segundo Renato,
em relação ao setor de Poá, desde 1998, ano em que ingressou na
carreira, vêm sendo apontadas deficiências de infra-estrutura
que inviabilizam a prestação adequada do serviço.
"Sob essa ótica
estrita poderia ser justificado o fechamento de alguns setores da
Assistência Judiciária, a fim de que outros sejam fortalecidos.
Porém essa ótica não pode se sobrepor ao significado
institucional da desativação de setores, e a perda que esse
fechamento representa para a comunidade destinatária da
assistência jurídica", compara. Para o procurador, encarar
como algo corriqueiro o fechamento de setores da PAJ faz com que a
própria instituição se apequene, ao subestimar a relevância da
missão constitucional conferida aos Estados na prestação de
assistência jurídica gratuita e na importância estratégica de
se manter tal serviço no maior número de comarcas possível no
Estado.
Compromisso
- Com a desativação dos setores na Grande São Paulo todo o
serviço ficará a cargo da subseção local da OAB. Na comarca de
Poá, segundo Renato, a presidenta da respectiva subseção já
mencionou que pretende efetuar o serviço de triagem em meio
período, três dias por semana. Tomando-se por base o número de
atendimentos médios mensais realizados de 2002 e 2003 e o número
de dias úteis do mês (20), a cada dia eram ali atendidos, pelos
procuradores, cerca 32 pessoas somente nas áreas cível e
família.
Os procuradores (dois, com
atuação mista – civil e criminal) tinham em suas bancas de
processos cíveis cerca de 300 ações cada, respondendo por todos
os processos de execução criminal da comarca, parte dos
processos criminais e os procedimentos de apuração de ato
infracional. "Não se pode conceber o exercício dessa
função essencial à Justiça sem as prerrogativas e a
fiscalização aplicáveis ao procurador de Assistência
Judiciária e ao defensor público. Ademais, o advogado conveniado
não se vincula à efetiva solução do problema que lhe é
trazido pelo assistido, mas à célere extinção do processo, eis
que sua paga provém do número de feitos assumidos",
enfatiza Renato, lembrando ainda a falta de compromisso com o
serviço de triagem (não remunerado pelo convênio) nas comarcas
vizinhas à de Poá geridas exclusivamente por subseções da OAB
e a inobservância do princípio da impessoalidade, por vezes
imputada a subseções da OAB incumbidas desse serviço de
triagem.
Na seccional de São José
dos Campos, até o início de junho nenhum comunicado oficial
havia sido feito a respeito das mudanças na PAJ. "Ficamos
sabendo das mudanças por meio de comentários. Primeiro, soubemos
das alterações em Mogi das Cruzes e, após, que existem estudos
para alguma alteração na nossa regional (Taubaté), mas não
sabemos exatamente quais são os planos do gabinete", conta o
procurador Waldenir Dornellas, da PAJ Cível da Seccional
de São José dos Campos, Regional de Taubaté.
Segundo Waldenir, até
então nada havia mudado no trabalho diário, mas, "se a
mudança planejada implicar no fechamento de alguma das unidades
ou mesmo na transferência de algum dos procuradores para unidade
distinta da que trabalham atualmente, as conseqüências serão
funestas".O assunto vinha sendo tratado com o
procurador-chefe da Regional de Taubaté, mas sem a participação
dos procuradores que atuam na área. "Nota-se, portanto, que
o processo deveria ser mais transparente. Falta, a meu ver,
ensejar-se maior participação aos envolvidos", observa
Waldenir.
Participação
- Para o procurador, dependendo da reestruturação realizada,
talvez possa haver melhorias no atendimento, "desde que tudo
seja muito estudado e com a participação dos procuradores que
conhecem a rotina do serviço. Uma mudança que parta de cima, com
base apenas em relatórios, muito provavelmente irá provocar uma
sensível piora do serviço", destaca, acrescentando que de
qualquer maneira os problemas decorrentes da falta de procuradores
– questão fundamental – não serão sequer minorados com as
mudanças. Ali, na área cível, são atendidas aproximadamente
duas mil pessoas por mês.
São apenas três
procuradores na área cível para atender uma cidade com 800 mil
habitantes e uma estrutura judiciária com sete varas cíveis, uma
da infância e juventude e um juizado especial. Não há sequer um
funcionário para auxiliar no serviço e, em decorrência desta
estrutura tão pequena, é atendida apenas a área de família
(que representa a maior fatia) e o restante da área cível
repassado ao convênio. Na área criminal, são apenas dois
procuradores para quatro varas criminais, mais o Jecrim, o Júri e
as execuções penais.
A grande demanda desta
regional já resultou inclusive em incidente no mínimo
constrangedor, caso do conflito ocorrido recentemente no
atendimento da área cível. Uma pessoa quis furar a fila e, como
foi impedida pelo segurança, agrediu-o com um soco e teve que ser
contida. "Na realidade, este tipo de coisa acontece porque um
número muito grande de pessoas nos procura e, conseqüentemente,
formam-se extensas filas. Quando o interessado vê aquela
multidão na sua frente fica nervoso e quer resolver seu problema
da forma que der; ou seja, sem submeter-se a senhas, filas
etc", destaca Waldenir. Apesar deste e muitos outros
problemas ali enfrentados, as pessoas que procuram o local para o
ajuizamento de ações de alimentos, por exemplo, são atendidas
no mesmo dia e as ações vão para o fórum também no mesmo dia,
à tarde, ou no seguinte.
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Defesa |
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Aproveitamento
será melhor e maior, diz subprocuradora
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"Mudanças
serão feitas no âmbito da Assistência Judiciária, com
fundamento no melhor e maior aproveitamento dos
procuradores do Estado e dos recursos públicos utilizados
para suprimento da ausência de integrantes da carreira em
determinadas comarcas. Os dados fornecidos pela
Corregedoria da PGE estão sendo rigorosamente estudados.
Não parece razoável a manutenção de apenas um
procurador do Estado em alguns locais de atuação, sem a
possibilidade de substituição em seus impedimentos,
férias e licenças. Pensamos, também, que podemos
fortalecer a atuação da PAJ, em algumas comarcas, com
atendimento, por completo, nas áreas cível e criminal,
ou em pelo menos uma delas, ao invés de nos mantermos na
triagem e administração de convênios. Certamente, nossa
atividade no exercício da Defensoria Pública poderá ser
enriquecida.
Acrescenta-se
que a demanda em alguns setores é excessiva e crescente,
impondo penosa carga de trabalho aos colegas nos locais onde
a população carente está concentrada, circunstância esta
que exige um melhor equacionamento para o bom desempenho do
serviço. Todas as metas serão trabalhadas junto às
chefias, que deverão expressar a vontade de seu grupo,
porém sem fugir ao compromisso da melhor solução ao
interesse do assistido.
Por fim,
esclareço que toda e qualquer medida não implicará
prejuízo aos hipossuficientes, que sempre contarão com o
serviço de assistência judiciária gratuita, prestado
diretamente pela PGE ou, indiretamente, por meio das
entidades conveniadas".
Mariângela Sarrubbo
é subprocuradora-geral do Estado na Área de Assistência
Judiciária; especializada em Direito do Consumidor; membro
do Conselho Curador do Procon e da Comissão de Defesa do
Consumidor da OAB-Secção de São Paulo.
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