ASSOCIAÇÃO DOS PROCURADORES DO ESTADO DE SÃO PAULO


 
 
Em Foco ________________________________________________________________

A reforma neoliberal do governo Lula
por Renato Albano Junior

Aqueles que têm acompanhado atentamente o cenário político sabem que a onda de "reformas" da previdência social não é nova, remonta a fins dos anos 80, na esteira dos ventos neoliberais que sopraram após o Consenso de Washington.

Mas o que ninguém poderia imaginar era que agora assistiríamos, surpresos, até diríamos estupefatos, que a bandeira da reforma da Previdência tenha sido retomada pelo governo Lula, em relação ao Regime Próprio dos Servidores, utilizando-se de expressões tais como "falência da Previdência Social", "déficit do regime previdenciário" e "privilégios" dos servidores públicos, que tão bem foram utilizadas pelo vocabulário neoliberal e agora passam a dominar o discurso oficial e os meios de comunicações.




Renato Albano Junior, doutor em Matemática, bacharel em Direito, auditor fiscal da
Previdência Social e presidente do Sindifisp-SP

"Manter o discurso de "déficit", a busca da justiça 
social e o argumento de pressão nos gastos públicos, 
como premissas para
as reformas, revela-se"

Agora, promovidos pelo dito governo democrático e popular, estão na ordem do dia a independência do Banco Central, a cobrança de contribuição previdenciária dos aposentados, a prorrogação da DRU (Desvinculação da Receita da União), o novo Refis que beneficia a apropriação indébita das contribuições previdenciárias descontadas dos trabalhadores e, pasme-se, um superávit primário superior em 50% àquele acordado com o Fundo Monetário Internacional!

Por que os mesmos remédios, para os mesmos efeitos, utilizados pela ortodoxia neoliberal, são agora receitados com um entusiasmo espantoso, obedecendo aos ditames do FMI? Essa política de reforçar o superávit primário para neutralizar o impacto dos juros sobre o déficit público consolida políticas de injustiça fiscal, além de inviabilizar as políticas sociais. E o que temos nesses seis meses de governo? Tendências recessivas, agravamento do desemprego, queda do rendimento médio do trabalho e uma brutal transferência de recursos públicos para os rentistas detentores de títulos públicos federais.

Manter o discurso de "déficit", a busca da justiça social e o argumento de pressão nos gastos públicos, como premissas para as reformas, revela-se assentado em falácias, pois:

Compara receitas da folha de pagamento com benefícios previdenciários urbanos, rurais e assistenciais, apresentando déficit, enquanto no orçamento da Seguridade Social há claramente um superávit. Trata-se de um artifício contábil para encobrir o desvio de recursos para compor o superávit primário;

Encara a questão dos sistemas de aposentadoria e pensões do serviço público comparados ao Regime do INSS, quando possuem naturezas diferenciadas;

Não leva em conta que, no período de 1995/2001, no qual a carga tributária total cresceu cerca de 10% (de 25% para 35% do PIB, aproximadamente), o gasto total com pessoal (ativos e inativos) passou de 5,68% para 5,55% do PIB (queda de 2,29%), ao passo que os encargos financeiros da União passaram de 3,99% para 8,94% do PIB (crescimento de 124,06%).

A reforma previdenciária pretendida pelo governo Lula, apresentada na PEC 40/2003, não atende às necessidades de financiamento do sistema e provocará desembolsos crescentes da União, gerados pela migração de parte das contribuições atuais para o setor privado, com a instituição de Fundos de Aposentadoria Complementar para os servidores públicos, abrindo espaço para a entrada das empresas privadas e garantindo um mercado estável e cativo para esse segmento.

A PEC 40/2003, por seu viés fiscalista, privatista e imediatista, além de nada contribuir para o verdadeiro debate democrático e racional em torno da questão da Previdência, sacrificará o que de melhor existe no aparelho público, notadamente nas carreiras típicas.

Ampla discussão com a sociedade brasileira sobre o conceito e natureza do Estado, suas funções e seu tamanho para a concretização das políticas públicas que a Nação necessita, a discussão da questão das bases de financiamento desse Estado e definição da distribuição entre os poderes, entes federativos e grupos sociais do ônus desse financiamento, era o que esperávamos do governo Lula, como preliminar a qualquer tipo de proposta de reforma, seja previdenciária ou tributária, para que o comprometimento dos recursos do Estado com o pagamento dos juros da dívida, que consomem 65% das receitas correntes líquidas da União, fosse debatido com a profundidade e transparência necessárias, em busca de seu equacionamento.

Mas, ao contrário, essa reforma aponta para uma ação atentatória à independência, à estabilidade e ao profissionalismo do aparelho do Estado republicano e democrático, ausente nela uma concepção de Estado e da máquina pública.

"A PEC 40/2003, por seu viés fiscalista,privatista 
e imediatista,
além de nada contribuir para 
o verdadeiro
debate democrático e racional 
em torno da questão da Previdência, sacrificará 
o que de
melhor existe no aparelho público, 
notadamente
nas carreiras típicas"

Parece que a esperança da construção de um país mais justo e solidário, com o fortalecimento do espaço público e democrático, que foi acesa com a eleição de Lula e a chegada ao poder do PT, com seu histórico de lutas, desfaz-se a cada dia, com cada ato praticado por aqueles que foram eleitos para combater a pobreza e as desigualdades sociais, mas que abraçam com fervor o ortodoxismo econômico, institucional e mental que tornam o neoliberalismo irreversível.

Será Lula o neoconverso que sacrificará o funcionalismo e o serviço público no altar do capital financeiro internacional, como prova de sua conversão?

 

 

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