ASSOCIAÇÃO DOS PROCURADORES DO ESTADO DE SÃO PAULO

 


 

Editorial _______________________________________________________________________

Quando setembro vier

Forçar no FMI e no Banco Mundial uma renegociação para reduzir a sangria dos juros da dívida externa (mais de 100 bilhões de dólares só neste ano), como fizeram vários países? Nem pensar. Tributar pesadamente o latifúndio ocioso, as grandes fortunas e a fração do empresariado que vive de isenções ou subsídios fiscais? Nem pensar. Impor sanções à fuga do capital especulativo e "volátil", como fazem há tempos o Chile, Índia, Malásia, China e outros países? Nem pensar. Cobrar com rigor o passivo tributário dos milhares de empresários inadimplentes? Nem pensar (melhor presenteá-los com um novo REFIS, com prazos de até 15 anos para pagamento). Reduzir a margem de lucros vampirescos dos parasitários banqueiros nacionais e agiotas internacionais? Nem pensar. A cálida aragem do planalto central torna evanescentes as promessas de campanha.

Em fevereiro, o governo Lula elevou de 3,75% para 4,25% do valor do PIB o comprometimento dos recursos públicos com o pagamento dos juros da dívida externa (o tal "superávit primário") – e o fez voluntariamente, sem exigência do FMI. Conseqüência: ou se cobre essa brutal despesa adicional com dinheiro retirado do bolso dos que há muito tempo ganham demais (os banqueiros, o capital especulativo etc.), ou se esfola aqueles que têm apenas um restinho de sangue no corpo – a classe "média" e os servidores públicos.

Sempre foi mais fácil sangrar os mais fracos: decepar direitos dos servidores, engatilhar aumentos nas alíquotas do imposto de renda da classe média e cortes nas deduções com gastos de saúde e educação, propor o ensino pago nas universidades públicas (quem diria...), tolerar aumentos escorchantes nas tarifas das empresas privatizadas – por aí vai.

Para ficarmos apenas nessa proposta de reforma da Previdência: se aprovada, ela completará a obra de demolição do serviço público, ao suprimir o que resta de atrativo para profissionais qualificados nele ingressarem e permanecerem – antes de mais nada, aqueles profissionais estratégicos, sem os quais nenhum Estado subsiste. Ou alguém se ilude de que, se triunfar esse caldeirão de insensatez, o Estado ainda conseguirá recrutar/reter pesquisadores qualificados, professores-doutores, magistrados preparados, diplomatas, bons advogados públicos, auditores fiscais íntegros etc.?

O outro lado da moeda: essa reforma configura verdadeira dádiva aos banqueiros – bastou o governo anunciar suas intenções em relação à Previdência, e as receitas dos planos de complementação de aposentadoria mantidos pelos bancos já deram, só no primeiro trimestre de 2003, um salto de R$ 3 bilhões, um crescimento inédito de 74,6%.

No limite, o que está em jogo é nossa concepção de Estado: forte, capaz de prestar serviços de qualidade à população, dotado de profissionais preparados, valorizados e motivados ao árduo embate em defesa do patrimônio público, do interesse social e da soberania do país; ou uma máquina ainda mais em frangalhos, definitivamente incapaz de resistir aos apetites privados, com servidores humilhados e desmotivados?

Nós, os milhões que nos orgulhamos de servir ao povo e à pátria, não ficaremos de joelhos face à tentativa de destruição do que resta de serviço público no Brasil! Transposta a estupefação inicial, ganhamos fôlego: marcha dos 30 mil em Brasília no dia 11 de junho, protestos em diversos estados no 26 de junho, greve dos federais e atos públicos na maioria das capitais no dia 8 de julho, a campanha nacional por rádios, televisões e outdoors em São Paulo.

Agosto promete ser mais quente: a votação da reforma da Previdência deve começar em setembro. Aumentaremos a pressão: estão sendo preparados novos atos públicos em todas as capitais, uma marcha ainda maior em Brasília e um corpo-a-corpo redobrado com os deputados federais. Se todos transformarmos nossa indignação em engajamento concreto nessa luta coletiva que se avoluma, conseguiremos, sim, barrar a ameaça.

Setembro poderá ter outro desfecho. Depende muito de cada um de nós.

 

José Damião de Lima Trindade

Presidente da Apesp

 

 

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