Marília:
procuradores foram fundamentais
para desmascarar o “golpe do remédio”
Os
procuradores da Regional de Marília tiveram
atuação decisiva no desbaratamento da quadrilha
que aplicava “o golpe do remédio”. O esquema
criminoso conseguia, por meio de ações judiciais,
que a Secretaria de Saúde fornecesse medicamentos
para a psoríase, com custos majorados e fora da
lista do Sistema Único de Saúde.
O SUS fornece
gratuitamente três medicamentos para psoríase, com
valores entre R$ 50,00 e R$ 1.000,00. No entanto,
os advogados da quadrilha usavam prescrições
forjadas pelo médico Paulo César Ramos para que a
Justiça obrigasse o Estado a fornecer remédios com
custo mensal de R$ 5.000,00 para cada paciente.
Apenas em 2007, a Secretaria da Saúde atendeu a
3.800 ordens judiciais, dentre as quais 2.500 com
origem fraudulenta, gerando um gasto de R$ 63
milhões.
A operação policial
prendeu 9 pessoas: um médico, dois advogados, dois
membros de organizações não-governamentais e
quatro funcionários dos laboratórios farmacêuticos
Wyeth, Mantecorp e Merck Serono.
A diretoria da
Apesp parabeniza todos os colegas envolvidos pelo
valoroso trabalho, que certamente dignifica a PGE
e sua constante atuação em defesa do interesse
público. Leia a seguir uma entrevista exclusiva
com o colega Thiago Pucci Bego, classificado na
Regional de Marília:
Apesp –
A sua
atuação (e a da Regional de Marília) foi decisiva
para que a polícia desbaratasse a quadrilha. Você
pode detalhar os passos desse trabalho?
Thiago Bego –
Os procuradores da Regional de Marília que atuam
nesses processos judiciais em que há postulação
dos medicamentos Raptiva, Remicade e Enbrel para
tratamento de psoríase detectaram a provável
falsidade dos laudos emitidos pelo médico Paulo
César Ramos em razão de uma série de fatores.
Tendo em vista que nos próprios processos cíveis
não se estava conseguindo promover tal
demonstração, principalmente porque muitos juízes
não permitiram uma dilação probatória mais ampla,
confiando plenamente nos documentos médicos
emitidos pelo citado médico para conceder a tutela
solicitada, surgiu a idéia da formulação de
requerimento para instauração de inquérito
policial pela Polícia Civil. O pedido de abertura
de inquérito foi firmado pelo procurador chefe da
Regional, Ricardo Pinha Alonso, sendo que, antes
de ser encaminhado à Polícia Civil, foi ratificado
pelo Subprocurador Geral da Área do Contencioso.
A investigação iniciou-se em Quatá, pois eu já
havia conseguido conversar com quatro autores de
lá (pessoas muito humildes): dois revelaram-me que
não eram portadores de psoríase, certo ainda que
nenhum deles tinha conhecimento de que eram
autores de demandas contra o Estado. Outrossim,
como a investigação teria que se iniciar de
maneira sigilosa (por conta da solicitação de
interceptação telefônica), entendeu-se que em Quatá isso teria mais condições de concretizar-se,
especialmente porque tal município está situado a
100 km de Marília (onde estão a sede da
Associação, o consultório do médico, a advogada
Fabiana Noronha etc).
Apesp –
Como as
suspeitas sobre o golpe foram suscitadas e
começaram a chamar a sua atenção?
Thiago Bego –
Suspeitamos da fraude por diversas razões, dentre
as quais destaco as seguintes: (1) 100% dos
relatórios médicos firmados pelo mesmo médico, o
qual não atende pelo SUS; (2) todas demandas
propostas com o auxílio da Associação dos
Portadores de Vitiligo e Psoríase do Estado de São
Paulo; (3) todas demandas referentes aos
medicamentos Raptiva e Enbrel patrocinadas pela
advogada Fabiana Noronha; (4) todas demandas
concernentes ao medicamento Remicade patrocinadas
pelo advogado Guilherme Goffi; (5) os três
medicamentos serem extremamente caros e não
padronizados para a (praticamente) incurável
doença de psoríase; (6) laudos médicos idênticos,
apenas com alteração da informação da quantidade
de anos que o paciente portava a doença; (7)
mudança dos relatórios médicos para contornar
argumentos de nossa defesa, ou seja, o médico
passou a afirmar em todos os casos que os
pacientes já haviam sido medicados com acitretina
e ciclosporina, dois medicamentos padronizados e
fornecidos pelo Estado; (8) aumento muito rápido
no número de ajuizamentos, inclusive com formação
de litisconsórcio (três ou quatro autores por
processo); (9) propositura de demandas em Quatá,
Comarca mais próxima de Presidente Prudente, vale
dizer, normalmente as pessoas dessa cidade
valem-se de serviço médico de Prudente, e não de
Marília; (10) desistência de algumas demandas,
especialmente quando havia deferimento de prova
pericial (eles apresentavam outro relatório médico
dizendo que a pessoa não necessitava mais do
medicamento).
Apesp –
Você está classificado na Regional de Marília, mas
contou com apoio da PJ8 (especializada em ações de
medicamentos)?
Thiago Bego –
Contamos não só com o importante apoio da PJ 8,
por intermédio do guerreiro colega Luiz Duarte,
mas também de outras Regionais, para as quais
pedimos informações sobre processos dessa natureza
– especialmente aos colegas da Regional de Bauru.
Apesp –
O seu
trabalho é um grande exemplo de atuação
preventiva, pois além de desbaratar uma quadrilha
que desfalcava os cofres públicos, também
minimizará as ações judiciais de medicamentos
provenientes do golpe. Essa atuação pró-ativa da
PGE é fundamental para o interesse público?
Thiago Bego –
Sem dúvida. Na atualidade, essas atuações farão
toda a diferença para a eficaz tutela do interesse
público e para a sustentação das Procuradorias
Estaduais como Instituições essenciais para o
regular funcionamento da Administração Pública e
da prestação da Jurisdição. Temos que inovar
constantemente, buscando novos elementos mediante
a interatividade com todos os demais órgãos
públicos. Trabalho em equipe com objetivo bem
definido sempre gera resultados positivos. O maior
resultado dessa investigação para o interesse
público certamente é o efeito educativo que dela
decorre. Com certeza o Estado deixará de gastar
dezenas e dezenas de milhões com medicamentos
(cuja aquisição é determinada em processos
judiciais) por força do efeito preventivo que tudo
isso que veio a tona proporcionará. Lamento apenas
que a PGE não tenha sido mencionada em qualquer
matéria relativa ao episódio.
Apesp –
Sem revelar
detalhes que possam atrapalhar futuras operações
como a desencadeada ontem, a Regional está
vigilante e trabalha atualmente em casos com o
mesmo perfil?
Thiago Bego –
A Regional está muito atenta em relação às
demandas concernentes a medicamentos, cuja
concentração maior verifica-se na Comarca de
Marília. Os colegas Kátia e Delton têm trabalhado
arduamente nesses feitos, sempre procurando
informações mais detalhadas a respeito objetivando
detectar eventuais outros abusos quanto a outros
medicamentos, especialmente quando se trata de
demandas patrocinadas por associações. Em
Ourinhos, o colega Renato Bernardi conseguiu
ajustar com os juízes um procedimento prévio à
apreciação de pedidos de liminares (de oitiva da
Procuradoria), que tem gerado resultados
extraordinários. Atualmente a maioria das
liminares é indeferida; outrossim, com isso,
verificou-se uma diminuição no número de
ajuizamentos.
Thiago Pucci
Bego
é
especialista em Direito Processual Civil e
procurador do Estado desde junho de 1998,
classificado sempre na área do Contencioso
Geral, Regional de Marília. Atua nas três áreas
(judicial, PPI e fiscal) e é responsável pelas
Comarcas de Tupã e Quatá e Vara Distrital de
Bastos.
Repercussão
-
Jornal Hoje, de
1°/09/2008 –
Clique aqui.
-
Folha de S. Paulo,
de 2/09/2008 –
Clique aqui.
-
Portal Abril, de
1°/09/2008 –
Clique aqui
-
Portal G1, de
1°/09/2008 –
Clique aqui
-
Estado de S.
Paulo, de 2/09/2008 –
Clique aqui
-
Jornal do Brasil,
de 2/09/2008 –
Clique aqui
-
Jornal A Cidade,
Ribeirão Preto, de 2/09/2008 –
Clique aqui
-
Jornal da Cidade,
Bauru, de 2/09/2008 –
Clique aqui
-
Correio do Brasil,
de 2/09/2008 –
Clique aqui
-
Site da Band, de
2/09/2008 –
Clique aqui